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Friday, May 18, 2007

Sinto-me analisada

"Sou uma pessoa basicamente indisciplinada e logo assim bastante desorganizada. Quando era miúdo, lembro-me bem, só não perdia a cabeça porque estava agarrada. E assim se manteve até hoje nem sei bem como. Então a minha cabeça voava, voava. Sempre fui um sonhador, um idealista, com traços de meio poeta. Focado numa qualquer paixão de circunstancia, perdia-me facilmente. Estas características cedo me guiaram ao caos. Até ao liceu não me lembro de ter agendado um teste e estudar a sério o que fosse. Cada um era uma surpresa aterrorizadora, descoberta no corredor antes de entrar para a aula. As minhas notas eram imprevisíveis. Era capaz do melhor e do pior. Vesti muitas meias desemparelhadas, perdi documentos importantes, cadernos, livros e até deixei a minha mochila viajar sozinha de autocarro até ao Bairro Madre de Deus. Chegado ao auge da adolescência, com as experiências inerentes ao estatuto, as borgas mais ou menos alcoólicas e psicadélicas o caos chegou ao rubro. Por essa altura experimentei uma precoce e traumática experiência laboral, como paquete de uma conhecida empresa de promoção de torneios desportivos. Resultado: depois de várias broncas e humilhações descobri que só havia uma maneira de sobreviver no mundo concreto real e cruel. Pousar os pés no chão e organizar-me. Foi duro e levou o seu tempo.
Hoje, passada a tormenta e digamos que bem sucedido, considero-me um homem feliz em grande parte graças às rotinas que afincadamente criei, e aos rituais que aprendi a referenciar. Hoje, deixo o telemóvel no mesmo sítio todos os dias. A carteira e os meus pertences apenas em caso de catástrofe não estarão no sítio previsto. Doeu muito mas hoje sou surpreendentemente organizado, quase como um computador (a minha descoberta dos computadores foi determinante para a minha organização mental). O meu telemóvel ou o portátil apitam sempre quando tenho uma reunião ou outro compromisso. Ou quando um familiar ou amigo faz anos. Desta forma ainda não falhei um aniversário de casamento. Raras vezes chego atrasado a algum sitio. Com o tempo aprendi a dominar o tempo. Deito-me a horas e levanto-me com as galinhas. Com um sempre delicioso café, sempre à mesma hora, com os previsíveis (e também às vezes deliciosos) programas familiares, um trabalho exigente e cansativo, levo afinal uma vida bastante previsível. Quando faço uma noitada fico quase dois dias doente.
Hoje sou o mais certinho dos seres vivos. Convicto, contente e sem arrependimento. Agora, promovo animadamente os rituais e rotinas, como se fossem as linhas e as margens de um caderno onde escrevo a minha vida. Que inspiram e suportam segurança e um projecto de vida. Rotinas e rituais que afinal são garantia de liberdade... proporcionando por vezes umas boas fatias de pacíficos tempos livres. Que servem até para com eles eu quebrar uma sólida rotina e falhar algum importante ritual."
Por João Távora, no Corta-Fitas.

Saturday, February 24, 2007

Thursday, July 06, 2006

After 10 months away...

... my Portuguese is a bit strange. Hopefully, my English is better than ever. But I guess a wouldn't survive more than one day with my Turkish.

Friday, June 23, 2006

A different side of Istanbul

«'I have never received flowers in my life', says Macide Açkıra, a thirty-one year old gypsy selling flowers. 'But every morning at nine thirty, my husband returns from the flowers auctions and brings me these... to sell!' she adds laughing with a throaty voice that suggests decades of heavy smoking.
Early each morning, while Macide is still stirring in her sleep, her husband leaves with fellow gypsy men from his neighbourhood, heading out to a different part of Istanbul to participate in the daily flower auctions. Female gypsies do not appear at the site of the auction; it is the duty of the men to do so. As the men bargain and purchase the day's bouquets, their wives meet and begin their half hour walk through the center of the city, to their designated spots on the side-walks of Nişantaşı, one of the poshest neighbourhoods of Istanbul. The men arrive in a shared pickup truck and unload the flowers in plastic vases and rusting tin cans that have been rescued from piles of trash. There is a short commotion as both men and women line up the vases, arranging the bouquets according to stem height and colour. It seems they are all secret experts on colour therapy as the neat rows of vases are shifted into perfect angles to catch the eyes of the hundreds of passerbys throughout the day. The order and angles of their flowers' display seem to take into account the dances of the sunlight and shadows throughout the day, for as the hours change, the flowers seem to as well in both presence and appeal.
'My favourite flowers are not among these here today', she comments, barely looking over the thirty vases that hold over six hundred flowers on that particular day. 'Fresias and hyacinths ares seasonal and can only be found in January to February'.
Macide has been selling flowers in the streets of Istanbul for the past eighteen years. It was her mother who began teaching her the trade and the one who eventually passed the business down to her. Not having children of their own, her husband and she focus their daily lives around the purchase and selling of flowers.
'I work from 9:30 in the morning until about 9:30 in the evening. The day ends when my husband appears to pick me up at night. Then together, we throw out the flowers that haven't been sold that day', she says. The average number of flowers her husband brings her every morning are the same, yet the amount remaining unsold at the end of the day depends on weather and luck... Those and of course unrivaled bargaining skills accompanied by a slick understanding of human psychology.
'I usually don't target particular types of people to call out to. I wait until I notice someone glance over at my flowers at the corner of their eye. (...)
'People buy flowers when they are sad. Women especially - when a women is upset - notice, she will buy flowers. So I also call out to one who look sad or as though they are having a bad day. Sometimes I smile first, to give them a non-intruding sense of kindness. Then I offer them some flowers. I never have to suggest a particular kind, at time slike this, people instinctively seem to know what they want. (...)
The last confession comes as a whisper and is interrupted by the arrival of a woman, a customer dressed in white and black, wearing stiletto heeled sandals and carrying a Gucci purse.
'Give me two bunches of gerberas and three daisies.'
Macide shuts up and begins to wrap up the flowers in shiny wrapping paper.
'Hello, welcome... Okay, okay...' she keeps saying, but there are no compliments. The customer ignores her greetings and almost rudely orders for other flowers to be taken out and wrapped. Once she has her armload if flowers, she strides away without thanks. Macide sits back down, apologizing to me for the woman's rudeness. (...)
I wonder aloud what she would do if her husband were to bring these roses home for her tonight. She thinks for a moment, stands up straighter under the rain and extending out her neck to the darkening afternoon sky, lets out a last throaty laugh.
'I would probably hit him on the head with it! Giving ME flowers is not romantic! That's like your man giving you a newspaper for Valentine's Day!'.
»

in TimeOut Istanbul, nº 33, October 2003

Wednesday, June 21, 2006

Stew pot


Izmir, Turkey
01/11/2006

Monday, June 19, 2006

Recipe for a strange physical (and psychological) state

Ingredients:

Normal çay, elma nargile, normal çay, kaşarlı gözleme, muz çay, gül nargile, peynirli gözleme, normal çay, muz, nane nargile, normal çay, elma nargile, kumpir, kup balbadem.

Preparation:

Mix all the ingredients, one by one, exactly as the previous disposal. Consume it in a hot and dry summer evening.
Enjoy.

Friday, June 16, 2006

Istanbul through the perspective of a camera


Laundry's day - Fatih
4th March 2006

Sunday, May 14, 2006

Aula prática sobre a importância da água

Após mais dois dias sem um pingo de água na canalização, considero-me mais do que preparada para escrever uma tese sobre a importância deste bem essencial no dia-a-dia de cada ser humano. Dada a falta de tempo, aqui fica um resumo:

Capítulo primeiro: higiene pessoal
Após 56 horas sem poder tomar um duche e a lavar os dentes a seco, damos por nós, estranhamente, a tornarmo-nos menos próximos fisicamente uns dos outros. Facto adicional: está um calor que não se pode.

Capítulo segundo: necessidades biológicas
a) Necessidades biológicas relacionadas com a alimentação
Nas primeiras 12 horas é possível cozinhar com água engarrafada. Depois? Só se se quiserem dar ao luxo de lavar toda a loiça com água engarrafada.
b) Necessidades biológicas relacionadas com o W.C.
Primeiro facto incontornável: a casa de banho é partilhada por seis pessoas.
Segundo facto incontornável: sem água, o autoclismo é um mero objecto decorativo.
Dúvida existencial: manter este compartimento encerrado a sete chaves, com perigo de morte a cada entrada, ou abrir a janela e permitir que o vento distribua o cheiro uniformemente por todas as restantes divisões?

Capítulo terceiro: sem solução à vista
Infelizmente, enquanto ninguém se decidir a restabelecer o sistema, não há muito que se possa fazer. A alternativa possível é passar o dia na rua e aproveitar todas as casas de banho decentes que se encontrar...

... e andar com uma escova de dentes no bolso também não é mal pensado...

Tuesday, May 09, 2006

Por terras búlgaras - diário de bordo

25 a 30 de Abril de 2006

Após semanas de discussão sobre uma possível viagem atá à Síria, eis que me encontro em Plovdiv, a segunda maior cidade da Bulgária. Como sempre, à última da hora, muitas foram as desistências, tanto que a nossa coragem inicial acabou por esmorecer ao ponto de optarmos pela decisão mais fácil. Não que a Bulgária seja um país acessível para qualquer pessoa (basta pensar na dificuldade da língua), mas é necessária uma grande dose de auto-confiança para se atravessar a Turquia oriental, especialmente no contexto actual, tendo como destino a Síria.
Assim, malas e despedidas feitas à pressa, lá nos metemos no autocarro no sentido oposto, rumo ao que os turcos designam de Bulgaristan.
Preocupados com o facto de a chegada estar prevista para as 5h da manhã (que fazer a uma hora destas numa cidade, ou melhor, num país completamente desconhecido?), mal adivinhávamos que, de facto, só colocaríamos os pés em Plovdiv três horas mais tarde. E isto porquê? Porque quando chegámos à fronteira deparámo-nos (como é que não nos lembrámos disto?) com a infindável e incompreensível burocracia turca. Estas três horas a mais foram passadas precisamente na fronteira, às 3h da manhã, sem termos conseguido dormir praticamente nada e sem percebermos muito bem o que se estava a passar. Primeiro levaram-nos os passaportes, depois trouxeram-nos de volta, de seguida entraram no autocarro para os verificarem novamente, sáiram, voltaram para os levar mais uma vez, carimbaram-nos e, finalmente, trouxeram-nos de novo (e isto apenas para sair da Turquia!). Uma hora de espera para ser a vez da polícia búlgara nos levar o passaporte, trazer, mandar sair do autocarro, revistar o autocarro, mandar-nos alinhar no meio da estrada e abrir todas as malas e sacos, revistar todas as malas e sacos (superficialmente, porque a sério dá muito trabalho, tanto que a brincadeira quase deixa de ter piada), mandar-nos entrar, verificar e carimbar passaportes e, claro, esperar.
Se pouco ou nada tinhamos dormido até aí, pouco ou nada dormimos após entrarmos no território bulgaro. Primeiro porque o nascer do sol permitiu-nos desfrutar de algo que escasseia em Istambul: o verde da natureza. Depois porque a paisagem urbanística tipicamente pós-soviética é surpreendente. Edifícios monumentais no meio do nada completamente em ruínas e abandonados são uma constante. Casas e prédios com traços tão direitos que se assemelham construções de legos, dos antigos claro, e com cores tão desvanecidas e tão tristes que, por mais gente e carros que se vejam na rua, praticamente todas as cidades e vilas por onde passámos pareciam mortas.

Tal como as casas, muitas das viaturas são autênticas relíquias.

A chegada a Plovdiv não mudou esta primeira impressão. Apesar de surpreendente, algo parece ter morrido nesta cidade.
Para disfarçar o cansaço, decidimos começar por tentar descobrir onde tomar o pequeno almoço e como o pedir. Sim, porque o que torna tudo ainda mais estranho e mais confuso é a língua e o alfabeto que usam. Já não bastava ignorarmos completamente qualquer palavra em búlgaro, como ainda nos deparamos com tudo escrito em cirílico (tornando-se completamente impossível qualquer tentativa de leitura). Para culminar, até a mímica é traiçoeira: abanar a cabeça para os lados significa sim, enquanto que para cima e para baixo quer dizer não.


Apesar da maioria das placas locais indicarem direcções erradas, globalmente nunca estivemos perdidos.

Quanto ao pequeno almoço, descobrimos que o típico é mesmo café e cigarros, acompahados por uma banitsa. Dispensados os cigarros, o café (autêntico, não uma imitação barata como aquela com que nos brindam os turcos) e a bela da banitsa (uma espécie de folhado frito recheado com beyaz peynir, um pouco oleoso mas não se pode querer tudo) soube-nos divinamente.
Acabámos por vir a descobrir que em termos alimentares, a Bulgária é um caso digno de estudo: 50% das pessoas com que nos deparamos na rua ou estão com um café ou com uma fatia de pizza na mão (conheço alguém que iria adorar isto). Sejam 7h da manhã ou meia-noite. A pizza é vendida em quiosques, que se encontram facilmente ao virar de cada esquina e, apesar de alguma concorrência dos kebaps, é notoriamente popular. Pelo menos três razões explicam este fenómeno: é barata (cerca de 70 cêntimos cada fatia), é extremamente boa (quase caseira) e é gigantesca (uma fatia é quase o triplo daquilo a que estamos habituados em Portugal).
Outro fenómeno do género são os gelados: imaginem o que é pagar menos de 2€ por um gelado com cone italiano (três vezes mais largo do que o normal) e duas bolas, sendo que cada uma é também cerca do triplo do normal e não esquecendo que a possibilidade de escolha de sabores é variadíssima, incluindo Baileys! Em Portugal pagaríamos, no mínimo, uns 7 ou 8€.

Stand de gelados, Plovdiv.

Bem, como se pode imaginar, com tanta distracção mal houve tempo (e estômago!) para provar a comida tradicional búlgara. Mas, diga-se de passagem, alimentámo-nos que nem reis...

Resultado de quando se está mais do que satisfeito, após um gigantesco repasto, mas se julga que pedir um simples gelado como sobremesa não é nada do outro mundo.

Pondo de parte o tema da alimentação, tivemos oportunidade de assistir a um outro fenómeno bastante intrigante: o comportamento social feminino deste país. Globalmente, parece existir uma dominância da ideologia do "sexy" como forma de poder. Especialmente em Plovdiv, foi realmente estranho entrarmos num mundo em que a cada dois metros nos deparamos com um mulherão, sempre vestidas para matar, quer seja para trabalhar, quer seja para fazer desporto, quer seja para ir às compras, independentemente das idades (dos 15 aos 50!). Muitos dos restaurantes, por exemplo, só admitem empregadas relativamente novas, jeitosinhas (o que não é nada, mas mesmo nada, raro por estes lados) e que se revelem disponíveis para usar mini-mini-saias, um milímetro abaixo do nível das nádegas! Mais assustador ainda é assistir aos esforços que fazem para cativar o interesse de um estrangeiro...
À primeira vista, a Bulgária é um país de sonho para qualquer homem (não esquecendo que a vida é bastante barata), mas parece-me que tanto exagero rapidamente perde a piada, tornando-se apenas num triste espectáculo.
Relativamente às cidades em si, como é previsível temos tido dias bem longos, com caminhadas intensivas do nascer ao pôr-do-sol. Plovdiv e Veliko Târnovo são duas cidades simplesmente encantadoras, repletas de história e de simbolismo, com ruelas labirínticas em calçada recheadas com pequenas lojas de antiguidades e de artesanato. A primeira é realmente fascinante em termos de curiosidades. Com muito orgulho, uma cidade de sete colinas (como Roma), Plovdiv perdeu uma durante a era comunista, tendo sido destruída para abastecer a cidade de pedra. Segundo os costumes búlgaros, "honour it - with a tear in a beer, or over a banitsa - at the gaping-hole seventh hill site". Divertidíssimo (claro que tem de haver sempre qualquer referência ao álcool)... Para além disso, o grupo Byalo Bratstvo ("Irmãos Brancos", devido à côr das suas vestes) tem dado as boas vindas ao sol no topo da Colina dos Libertadores, todos os dias, ao nascer do sol, durante as últimas décadas! Não é para todos, não... Outro fenómeno curioso, é a estátua nas escadas centrais, em honra de Milyu, the great gossiper, que nos anos 80 e 90 ganhou fãs pelo seu "unsubtle listening-in to passers-by". Ninguém afirma que abraçar a estátua de Milyu dá sorte, mas a verdade é que todos o fazem!

"The Great Gossiper", Plovdiv.

Em Veliko Târnovo, o mais interessante é mesmo o velho forte, praticamente todo em ruínas, mas cujo recinto dá lugar a um incrível espectáculo de luzes, observável a partir de toda a cidade, pelo menos uma noite por semana (curiosamente, assistimos logo na primeira noite que passámos na cidade). Mais impressionante ainda é o renovado Complexo Patriacal no centro do forte. Uma igreja (se é que pode ser designado de igreja) das mais modernas que já vi, sem dúvida alguma. No seu interior, murais históricos, com pinturas muito próximas da arte de Dali, e um incrível altar suspenso fascinam qualquer visitante.


Complexo Patriarcal, observado a partir do forte, Veliko Târnovo.


Altar suspenso no interior do Complexo Patriarcal, Veliko Târnovo.


Quanto a Sofia, é uma cidade um pouco mais urbana, claro, com edifícios monumentais um pouco por todo o lado e onde se pode encontrar de tudo, até mesmo relíquias e velhos objectos nazis, numa feira de antiguidades. O que mais me atraiu foi, sem dúvida alguma, foi a igreja russa St. Nikolai (que por breves instantes nos fez pensar termos passado instantaneamente de Sofia para St. Petersburg).

Feira de antiguidades, Sofia.

Igreja russa St. Nikolai, Sofia.

Mais uma noite de pouco descanso e de muita burocracia na fronteira e estamos de volta a Istambul.

Friday, May 05, 2006

Finally, we have pets at home...


(brought directly from Bulgary)

Friday, April 21, 2006

Living in Istanbul

Após três dias sem gaz e um dia sem electricidade, quando tudo parecia estar a funcionar correctamente e quando todos pensavam que finalmente se poderia tomar o tal banho mais que merecido, o único barulho que se passou a ouvir na canalização da água foi o vazio.

Wednesday, April 19, 2006

"Dondurma experience"


Sim, aquilo é gelado (sim, eu sei que parece borracha).
E não, a foto não é minha (tirei-a daqui) mas, com o calor à porta, parece-me que pouco falta para poder tirar uma do género... ;)

Wednesday, March 15, 2006

State of mind

Feeling like an yabanci in my own country.

Monday, March 06, 2006

Göreme - Istanbul (22 a 26 de Fevereiro)

(treze horas para Istanbul, total: 48 horas e meia dentro de autocarros)


Três da tarde, exaustos e famintos, acabados de chegar a Göreme. Dúvida existencial: "o que procurar primeiro: onde comer ou onde dormir?".
Claro que o estômago falou mais alto e partimos em busca de um restaurante. Foi nesta altura que nos deparámos com a estranha realidade de Göreme: no Verão, inundada de turistas, são mais que muitas as possibilidades de escolha, tanto a nível de restaurantes como de hotéis. No Inverno, com uma diminuição significativa do n° de turistas, mais de metade dos sítios fecha e a cidade transforma-se praticamente numa cidade fantasma.

Com uma possibilidade de escolha bastante limitada, encontrámos um pequeno restaurante tradicional que nos encheu tanto os olhos como a barriga. Foi nesta cidade que descobrimos que afinal há bem mais do que mil e uma receitas diferentes de kebap (quase tantas como de bacalhau em Portugal). Uma das que tivemos oportunidade de experimentar foi o Testi Kebap, um kebap que é cozinhado dentro de um pote de barro (típico da região) fechado e que é partido ao meio quando é servido. Realmente, é incomparável ao normal Dürüm Kebap, mas não me perguntem o que é que eles fazem com as toneladas de potes partidos todos os anos.

Assim que reconfortámos o estômago, o nosso olhar em relação ao que nos rodeava tornou-se bem mais atento e, consequentemente, surpreso com a inacreditável paisagem. Completamente surreal. Compreende-se bem porque é que a Cappadocia é das zonas mais procuradas por turistas na Turquia. As incríveis formações rochosas são consequência da acção da força da água e da erosão num solo de origem vulcânica e o resultado é realmente surpreendente: as famosas rochas em forma de cogumelos, as fairy chimneys, as cordilheiras de montanhas onduladas, semelhantes a um grande gelado de baunilha (ou de morango, a cor vai variando durante o dia), que, de tão frágeis que parecem, receamos que se desfaçam com um simples toque, como castelos de areia... E, o mais curioso, as imensas caves antigas construídas dentro de rochas imponentes e que ainda hoje são habitadas.


Após uma olhadela aos guias, apercebemo-nos que não seria nada fácil escolhermos um sítio onde ficar. Para além da quantidade, os preços são extremamente competitivos. Decididos a não perder tempo, dirigimo-nos ao posto de turismo da cidade e a percepção do quão turística é Göreme foi imediata: ao nosso inteiro dispôr, gratuitamente, tinhamos uma lista completa de todos os hotéis e pensões, com descrições detalhadas, incluindo preços, e fotografias. Para além disso, assim que seleccionámos os que mais se adequavam ao que pretendíamos (a ideia de podermos dormir numa das caves não nos saía do pensamento), o empregado de serviço pegou imediatamente no telefone, informou os gerentes e verificou se havia quartos disponíveis ou não. Inacreditável tanta eficácia.

Não foi nada complicado, portanto, descobrirmos onde ficar. Com duas indicações na mão, tomámos o caminho da primeira morada e, curiosamente ou não, o gerente já se encontrava à nossa espera. O nosso entusiasmo não tardou a esmorecer assim que vimos o tão aguardado "cave room": um cubículo, sem janela alguma, a cheirar a mofo, numa cave de uma casa normal. Ainda com alguma réstia de esperança, perguntámos se podíamos dar uma olhadela aos outros quartos.
- Claro que sim, mas vamos tomar primeiro um chá. Tivemos um pequeno problema com a canalização e estamos a tratar disso. Meia horita e está pronto.
Nada predispostos a esperar nem mais um minuto, lá convencemos o homem a mostrar-nos o tal quarto e não conseguimos esconder o quão surpresos ficámos com tanta lata. O quarto, para além de ser um quarto normal dentro da casa dos senhorios, estava completamente vazio e as tais reparaçõezitas implicavam acimentar todo o chão! Os nossos conhecimentos sobre obras não é muito, mas meia hora para cimento fresco secar e para limpar e mobilar um quarto?!
- Ok, obrigada, mas vamos dar uma volta pela cidade e já voltamos.
"Pois sim... Podem esperar sentados."
Completamente desapontados, lá pegámos no papel com as moradas e dirigimo-nos para a segunda opção. Não é difícil imaginar as nossas caras perante mais um quarto normal (embora, desta vez, minimamente habitável). Hesitámos em fazer novamente a difícil pergunta.
- Podemos ver os outros quartos?
Completamente surpresos, mas desta vez por bons motivos, mal pudemos conter os sorrisos quando demos por nós a caminho de um autêntico cave room. Roda-se a chaves na fechadura e, perante um quarto aparentemente decente, nem perdemos tempo a verificar a casa de banho ou qualquer outra coisa.
-Ok, ficamos quatro noites. A que horas é servido o pequeno almoço?

O nosso cave room.

Estômago satisfeito, banhito tomado (desta vez a sério e com água quente), sete horas da tarde e já estava tudo a dormir, para só acordarmos catorze horas depois. Descanso mais do que merecido.
Manhã seguinte, no terraço a apanhar sol e com um belo de um pequeno almoço turco à nossa frente. Melhor impossível. Até mesmo a vista estava mais do que à altura: o centro da vila bem à nossa frente, com as formações rochosas quase sobrenaturais como pano de fundo.
Apesar de ser mais do que convidativo para uma bela de uma caminhada, tinhamos um problema prioritário para tratar: lavar roupa. Eu sei que não parece nada bem dizer que passámos a nossa primeira manhã na Cappadocia a lavar à mão, com sabonete e no lavatório, roupa suja de mais de uma semana, mas é a pura das verdades. Felizmente, a tarde compensou: a nossa primeira caminhada pelos vales da região. Regressámos já quase ao cair da noite, mais do que cansados, cobertos de pó desde a ponta dos pés à ponta dos cabelos, com alguns arranhões e quase sem impressões digitais (as rochas são formações arenosas, logo com potente efeito erosivo na pele, sobretudo quando se decide que a melhor vista para o pôr-do-sol é no topo de uma das mais altas, portanto algo difícil de escalar).

Os dias seguintes foram passados a explorar um pouco mais estes vales, por vezes com caminhadas de mais de 8 horas, e as vilas dos arredores. Um dos fenómenos mais incríveis a que se pode assistir é a mudança de cor da paisagem, consoante as horas dos dias, desde amarelo torrado a cor-de-rosa.

Mas o que não falta na Cappadocia são fenómenos estranhos: desde os camelos trazidos de outros países para satisfazer os desejos dos turistas concebidos por falsos estereótipos, ao UFO Museum, um museu sobre a vida extraterrestre, cuja indicação encontrámos numa estrada deserta, a quilómetros de distância de qualquer forma de civilização moderna. Just for the fun, lá seguimos a direcção indicada na placa e demos com uma barraca, igualmente no meio do nada, mas, infelizmente, estava fechado.


No segundo dia, traçámos a nossa rota de maneira a passarmos pelo Göreme Open-air Museum, onde podemos visitar as mais bem conservadas igrejas, capelas e mosteiros bizantinos contruídos dentro de formações rochosas. Inacreditavelmente, passados tantos séculos, permanecem de pé, com frescos impressionantes quase intactos.
A não perder igualmente, é o castelo de Uçhisar, construído através da mesma técnica de escavação na rocha, cujo topo é o lugar ideal para se ter uma panorâmica da região.

Foi com alguma tristeza que nos fizemos novamente à estrada, de regresso a Istanbul. Em três dias não deu para explorar nem metade de tudo o que a Cappadocia tem de interessante. Uma semana não seria demais, certamente.
Domingo, nove horas da noite. Ninguém precisa de nos dizer que chegámos a Istanbul: chove torrencialmente (para contrastar com o tempo primaveril de Göreme) e na otogar a azáfama é ensurdecedora. Buzinadelas, gritos e até mesmo o som de instrumentos musicais turcos e cânticos. Também ninguém precisa de nos dizer que houve um jogo de futebol. A multidão começa a aglomerar-se cada vez mais. Cantam, dançam, lutam. Continua a chover. Separam-se, fazem as pazes, cantam, dançam, gritam. Meia hora passada, continua a chover e nada do dolmuş. Mais uma luta, mais uma cançãozita, mais umas danças, os autocarros querem estacionar e não podem, buzinadelas, gritos... Sim, definitivamente não nos enganámos no nosso destino: Istanbul é inconfundível. Onde mais é que alguém se lembraria de vir comemorar a vitória de uma equipa de futebol para o parque de estacionamento de uma uma otogar, no meio do nada, nos arredores de uma das maiores cidades do mundo, à noite e com um tempo destes?
Dez horas da noite, Taksim, o centro da cidade. Com as mochilas às costas, completamente encharcados e esgotados de treze horas de viagem, percorremos a Istiklal, de regresso a casa, pensando nos possíveis problemas que poderiam estar à nossa espera em casa: falta de água? Falta de luz? Inundações? Ou quem sabe uma derrocada no edifício... Tudo é possível (e mais do que comum) por estes lados.
Felizmente, estava tudo no lugar e em perfeito funcionamento (a água só viria a faltar no dia seguinte e apenas por 48 horas) e até tinhamos uma boa surpresa: um amigo italiano, que regressou a Istanbul por uns dias na nossa ausência, não se esqueceu de nós e deixou-nos uma caixa de Bacci, uma cafeteira e um pacote de café italiano (que compensou maravilhosamente os 5 meses de penúria a Nescafé e a café turco).

Tuesday, February 28, 2006

Nevşehir - Derinkuyu - Nevşehir - Göreme (22 de Fevereiro)

(uma hora, ida e volta, para e de Derinkuyu, mais meia hora para Göreme, total: 35 horas e meia dentro de autocarros)

Se o normal em Portugal é os autocarros se atrasarem e demorarem mais tempo do que é previsto a chegar, inexplicavelmente, por estes lados os caminhos parecem tornar-se mais curtos e, por vezes, chegamos mais cedo do que o que estava estipulado. Algumas dessas vezes, bem mais cedo.
Nevşehir, otogar, cinco horas da manhã. Estado de espírito: "como é que chegámos aqui tão depressa?" e "que raio vamos fazer até às oito horas da manhã?".
Após algum tempo a tentar descansar um pouco nos desconfortáveis bancos metálicos da otogar (vale a pena lembrar que já era a segunda noite mal dormida), as agências de viagens começaram a abrir e, vendo ali possíveis clientes, não hesitaram em fazer-nos ofertas para entrar e "beber um chá". Mesmo sabendo que não íamos fazer negócio algum, mas de olho nos confortáveis sofás e no cházito, lá aceitámos um dos convintes. Obviamente, já ninguém dormiu mais mas, pelo menos, relaxámos um pouco no belo do sofazito e confortámos o estômago.

Por volta das 7h00, após muita leitura de panfletos turísticos, tanto que os vendedores se aperceberam de que não íam conseguir nada de nós, lá ganhámos coragem para meter as mochilas às costas e partir para o centro da cidade.
Pequeno almoço tomado e alguns quilómetros feitos a pé, decidimos apanhar um dolmuş para uma das cidades subterrâneas dos arredores: Derinkuyu.

Não se sabe ao certo quando foram construídas, mas não há dúvidas de que no século VII d.C. estavam habitadas. Em tempos de paz, a população fazia a sua vida normal à superfície, mas, sentindo-se ameaçada, refugiava-se debaixo de terra, num imenso labirinto de túneis, onde podia sobreviver por mais de seis meses. O mais curioso e impressionante é mesmo a dimensão destas cidades subterrâneas: Derinkuyu, por exemplo, tem sete andares! Dificilmente resistimos à tentação de tentar perceber como é que a população de uma cidade inteira conseguia sobreviver por tanto tempo num ambiente tão claustrofóbico (não são muitos os respiradouros exteriores), sobretudo quando se usava fogo tanto para cozinhar como para iluminação. Simplesmente inacreditável.

Terminada a visita, lá apanhámos o dolmuş de volta para Nevşehir e, apesar de esfomeados, começámos algo que iria durar horas intermináveis: a procura da paragem dos autocarros para Göreme. Primeiro, esperámos mais de uma hora na paragem que nos indicaram no posto de turismo, cansados, acabámos por perguntar a um polícia que nos disse que afinal era dois quarteirões depois, "sem dúvida alguma". Uma vez mais, quase uma hora de espera e nada. Nem mesmo os motoristas a quem perguntámos nos souberam dar uma resposta exacta. Já a entrar em desespero (misto de exaustão e fome), decidimos percorrer a pé os cerca de 4kms que nos separavam da otogar, onde seria impossível não encontrarmos o dito autocarro: mais tarde ou mais cedo todos lá páram. A meio do caminho, alguém nos disse que não precisavamos de ir até à otogar, bastava esperarmos ao lado de um liceu, mas, obviamente já descrédulos de qualquer informação proveniente de um turco, decidimos continuar. Ironia das ironias? Após apanharmos (finalmente) o dito autocarro na otogar, este não só havia todas as meias horas como, em vez deste sair imediatamente da cidade, passava primeiro ao lado do tal liceu.

Pormenores à parte, exaustos e famintos, finalmente a caminho de Göreme.

Monday, February 27, 2006

Amasya - Tokat - Nevşehir, Cappadocia (21 de Fevereiro)

(duas horas e meia de viagem de Amasya para Tokat e cinco horas e meia para Nevşehir, total: 34 horas dentro de autocarros)

Com apenas uma tarde para gastar em Tokat, tentámos planear tudo da forma mais proveitosa possível, mas a sensação de que se precisa de dormir numa cama decente e de que é urgente um banho a sério dificultou tudo um pouco mais.

A cidade em si não tem nada de tão impressionante como Safranbolu ou Amasya, mas foi bastante interessante visitar a Gök Medrese, um edifício usado como hospital até 1811 e que agora está transformado num museu, e o Latıfoğlu Konağı, considerado uma das melhores casas otomanas restauradas da Turquia. De resto, apenas mais algumas mesquitas e mais alguns túmulos.

Mesmo tendo supostamente ficado num quarto com banheira em Ankara, esta sim foi a primeira banheira que vimos na Turquia, em exposição na Gök Medrese.

No entanto, o que realmente nos motivou a caminhar toda a tarde foi a busca pelo famoso Tokat Kebap, um prato típico com fama de soberbo, mas, estranhamente, impossível de encontrar na sua própria cidade de origem. Acabámos por ter de nos contentar com uma sopa e, uma vez mais, um kebap normal.

Agência de viagens, 23h00: preparados para uma longa viagem nocturna até Nevşehir, bem no coração da lendária Cappadocia.

Saturday, February 25, 2006

Samsun - Amasya (19 a 21 de Fevereiro)

(duas horas e meia de viagem, total: 26 horas e meia dentro de autocarros)

A meio da viagem, com o estômago a dar horas (sonoramente, já que a última refeição decente tinha sido o almoço do dia anterior), decidimos comprar poğaças numa otogar (sempre suspeitas a nível de comida), mas algo que nos deveria saber mais ao menos ao belo do pãozito de leite, tinha um sabor estranhamente parecido a carne fumada. Mais uma lição aprendida (de uma forma desgostosa - literalmente).
Mais uma vez, e após uma noite quase em claro na otogar, chegámos cedo demais ao nosso destino. E as aventuras também não tardaram. À espera de um dolmuş para o centro da cidade, travamos conversa com um turco que nos explica onde o devemos apanhar e onde devemos sair. Já na paragem, uma carrinha pára, o homem diz-nos que devemos entrar, mas só depois de já estarmos em andamento é que nos apercebemos que a carrinha não era um dolmuş, mas uma viatura particular de um amigo, que, por sinal, não tinha cara de grande amigos, para além de que o vidro frontal estava rachado, com dois buracos no meio (como se fossem de balas). Já a imaginar as mais mirabolantes das histórias, e com o coração apertadinho, mal fomos capazes de agradecer quando a carrinha parou no destino pretendido e o homem nos disse que podiamos sair.
Na cidade, incrivelmente deslumbrante, repleta antigas casas otomanas, tal como em Safranbolu, atravessada por um rio, monumentais rochedos como horizonte, resolvemos compensar a situação com um verdadeiro kavaltı (pequeno almoço tipicamente à la turca): o indispensável chá, claro, um balde a transbordar de pão, um prato com tomate, pepino, ovo, salame, azeitonas e o famoso beyaz peynir (uma espécie de queijo fresco mas mais seco, que eles insistem em comer com tudo e mais alguma coisa) e taças com mel, manteiga e compotas (isto tudo para apenas uma pessoa e por apenas 3 YTL - cerca de 2€). Ainda me interrogo como passei a apreciar tanta variedade logo de manhã, logo eu que era adepta das simples torradinhas com leite (embora confesse que o salame, as azeitonas e a salada ainda me fazem alguma confusão).

Depois de um pequeno almoço destes, não foi de admirar olhar para o relógio e constatar que todo o tempo que tinhamos para gastar antes de podermos fazer o check-in num hotel já se tinha ido. Não hesitámos em iniciar imediatamente as buscas por um sítio onde ficar, ansiando por um bom banho e um casa de banho europeia. Sim, porque para este lados as sanitas ainda não estão muito divulgadas - não é nada raro, muito pelo contrário, entramos num tuvalet e depararmo-nos apenas com o belo do buraquito no chão. Melhor do que isso, os turcos têm a teoria que é muito mais higiénico lavarmo-nos em vez de usarmos papel, por isso, a acompanhar o buraquito o que temos? Uma mangueira!
Felizmente, as buscas não demoraram muito e encontrámos um hotel consideravelmente barato em pouco tempo. Mas também não foi preciso muito tempo para descobrir o porquê do preço: a limpeza provavelmente era feita de mês a mês e aquecimento e água quente só entre as 21h e as 8h. Água quente na teoria: fazer um turco entender que há quem não consiga tomar um duche no Inverno só com água morna revelou-se uma verdadeira missão impossível. Solução? Banho à gato durante três dias.

Estoirados de todas as peripécias dos dias anteriores, embora fossem duas horas da tarde, caímos na cama que nem pedras, tanto que nem a falta de banho e comida decentes ou de um quarto minimamente limpo nos perturbou o sono até ao final da tarde. Obviamente que acabámos por decidir gastar o resto do dia a recuperar energias.
Ainda experimentámos entreter-nos um pouco com a televisão, mas acabámos por descobrir que é possível ter-se numa única TV a selecção dos vinte piores canais turcos. Ai querem música?! O Krall (canal com música turca de baixa qualidade) é bem mais do que suficiente. É que nem sequer o Powerturk... Mas também não se pode exigir muito de uma televisão como a turca. Nós reclamamos quando de manhã temos de levar com toneladas de publicidade, mas a TV turca consegue superar todas as expectativas: imaginem o que é ter de aguentar o dia todo com a mesma publicidade, neste caso a do Calgon, em todos os intervalos, de qualquer que seja o programa. Parece-me que a definição de "público alvo" ainda não chegou a estes lados.
Outro aspecto interessante é o facto de dobrarem tudo e mais alguma coisa que seja em língua estrangeira (nem a nossa Lúcia Moniz no Love Actually conseguiu escapar...).
Mais cómica ainda é a censura existente em alguns canais. Num país que deu origem à expressão "fumar como um turco", existe um canal que desfoca todos os cigarros e todas as cenas em que se encontra alguém a fumar. Simplesmente hilariante...
Bom, mas quem pode fazer dissertações infindáveis sobre a televisão turca (talvez até uma tese de mestrado), bem melhor do que eu, é quem passou noites em claro na sua companhia, tal era a fascinação.
Tudo isto para dizer que a hipótese TV foi imediatamente posta de parte. Solução? Premir-se o botãozito vermelho do comando e dormir.
O dia seguinte começou cedo (sim, ainda havia alguma esperança de que pudesse haver água quente antes das oito horas da manhã). Forçados a uma limpeza a frio, rapidamente ficámos despertos o suficiente para iniciarmos uma caminhada que só terminaria ao cair da noite (claro que não sem antes tomarmos um belo de um kavaltı).
Com tanto para ver numa única cidade, não foi fácil traçar o nosso destino. Começámos por percorrer a Atatürk Cad., visitando algumas mesquitas, tendo sido a Minare Camii uma das mais surpreendentes, com uma estrutura semelhante a uma igreja arménia e com um minarete em espiral, alguns túmulos, o Taş Han (um antigo caravenserai) e o Vakıf Bedesten Kapalı Carşı, um antigo bazar coberto, ainda hoje em uso, mas que, com o tempo, acabou por se transformar numa espécie de feira. Do antigo bazar só sobreviveu o corpo, não o espírito.
Uns bons passos depois, tivemos oportunidade de visitar outro interessante edifício, o Darüşşifa / Bimarhane, construído como hospício em 1309 e que se pensa ter sido um dos primeiros a tentar tratar distúrbios mentais com música. Actualmente, está transformado numa simpática cafetaria, que convida os viajantes a descansar um pouco e a tomar um chá, num ambiente muito oriental.

Após este merecido descanso, fizemo-nos novamente à estrada e andámos uns bons quilometros no meio das montanhas (por vezes um pouco desorientados, confesso) em busca da Aynalı Mağara, uma tumba romana, que provavelmente chegou a ser usada como capela pelos Bizantinos, que pintaram alguns frescos no seu interior. Com uma inscrição grega na fachada, este é das poucas tumbas romanas a ter qualquer tipo de ornamento. A caminhada, embora longa, foi bastante agradável, rodeados por uma paisagem impressionante, mas a chegada decepcionante. Para quem visitou as tumbas de Dalyan, as de Amasya deixam de ser surpreendentes, especialmente porque estão fechadas a visitas (pelos vistos, devido a casais que gostavam de passar bons momentos nos cantos mais obscuros) e só nos podemos ficar pelo exterior. Valeu a pena simplesmente pelo percurso.
De volta à cidade, decidimos explorar o lado oposto do rio, mais umas quantas mesquitas e outras tantas casas otomanas, mas uma fantástica medresesi octogonal, a Büyük Ağa Medresesi, um espécie de escola onde se estudava o Al-Corão. Neste momento, ainda serve de seminário para rapazes que se pretendem tornar hafız (teológicos que sabem o Al-Corão de cor).
Terminámos o dia com uma extenuante escalada na montanha central, onde pudemos explorar mais algumas tumbas romanas (igualmente decepcionantes, mas com vistas soberbas sobre a cidade) e as ruínas do Palácio das Maidens, que, pelo que parece, era uma espécie de harém. Ainda tentámos chegar ao topo e alcançar a citadela, mas fomos forçados a desistir da ideia quando nos apercebemos que a luz do dia já começava a deixar de ser suficiente.

Regresso ao hotel, nais um banho à gato e cama.
Dia seguinte, 10h30, otogar: de partida para Tokat.

Monday, February 20, 2006

Safranbolu - Bartın - Amasra - Bartın - Samsun (18 a 19 de Fevereiro)

(2 horas de viagem para Bartın, meia hora para Amasra, mais meia hora para regressar a Bartın e 9 horas e meia para Samsun, total: alcançámos as 24 horas dentro de autocarros)

Nove horas da manhã. Praça central de Safranbulo, à espera do dolmuş para a otogar. As férias no Paraíso não podiam durar sempre.
Chegámos a Bartın perto do meio-dia, após duas horas de quase desespero dentro de uma amostra de autocarro, numa estrada com mais buracos do que um queijo suíço. A intenção inicial era apanhar um autocarro para Amasra, na costa do Mar Negro, passar o dia na praia e à noite fazermo-nos novamente à estrada, percorrendo a costa até Sinop. Era um bom plano, não era?


Primeiro probema: chovia torrencialmente.
Segundo problema: todos os autocarros partem de Bartın (Amasra não tem otogar, o que nos obrigou a ter de voltar para Bartın).
Terceiro problema: já não havia bilhetes para Sinop.
Quarto problema: a alternativa, Samsun, só tinha um autocarro às quatro e meia da tarde.



Solução: apanhar o primeiro dolmuş para Amasra, almoçar, meia horita na praia (na companhia de um amoroso Golden Retriever, que desencantou uma bola de futebol na areia e que não descansou enquanto não nos pôs a jogar com ele, mesmo ensopados até aos ossos), voltar o mais cedo possível para Bartın e apanhar o autocarro das 16h30 para Samsun.



Facto curioso: pudemos comprovar que as aves turcas têm realmente qualquer problema psicológico (não, não me parece que esteja relacionada com a tal gripe). Tal como as aves em Istambul não dormem, há cisnes na costa do Mar Negro.



Quinto problema: os funcionários do autocarro (por estes lados existe habitualmente alguém a servir bebidas, e por vezes até mesmo uma fatiazita de bolo, durante as viagens) não eram muito dados a yabanciler (estrangeiros - segunda palavra mais ouvida), por isso arranjaram maneira de nos meter em lugares separados (embora tivessemos bilhetes para lugares juntos) e passaram o caminho todo a gozar com a situação. Eu, extraditada para um dos lugares à frente junto das mulheres de véu (que tentam manter a aparência de que nada se passa), a certo momento, ouço um dos funcionários a ser inteligentemente insultado em francês. Quem percebeu não proferiu mais uma única palavra até ao final da viagem. Por sorte, o ofendido não foi uma dessas pessoas ou provavelmente teríamos sido largados sozinhos numa estrada qualquer no fim do mundo.
Sexto problema: vá-se lá saber como, mas o certo é que a viagem durou menos umas cinco horas do que o previsto (como piada, circula a teoria de que se criam livrar o mais depressa possível dos yabanciler) e chegámos a Samsun antes das duas horas da manhã, o que nos leva ao sétimo problema: ficar na otogar e praticamente não dormir (o primeiro autocarro para Amasya era só as 8h30) ou tentar procurar um hotel onde passar a noite e adiar a partida por uma horas? Infelizmente, optámos pela segunda alternativa.
Infelizmente porquê? Primeiro fomos deixados à porta de um hotel 4 estrelas (a comunicação em turco continua a ter claramente ligeiras falhas). Segundo, todos os sítios que conseguimos encontrar com uma aparência mais normal tinham um preço igualmente abusivo. Por último, apercemo-nos que os únicos preços aceitáveis eram lugares com muito a desejar e altamente suspeitos (num deles, por exemplo, o gerente abriu a porta de todos os quartos para se certificar de se tinha ou não algum disponível).
Conclusão: uma hora de caminhada de volta para a otogar, onde chegámos às três da manhã, com a bela da tralha toda às costas e quase cinco horas sentados à espera do autocarro para Amasya.

Ankara - Safranbolu (16 a 18 de Fevereiro)

(4 horas de viagem, total: 11 horas e meia dentro de autocarros)

Cansados da cidade de betão, não nos poderíamos ter sentido melhor ao chegar a Safranbolu, uma pequena antiga vila otomana classificada como uma World Heritage pela Unesco. Rodeada por montanhas e penhascos rochosos, coberta de neve, mas com um tempo relativamente agradável, pareceu-nos o paraíso.


Mais uma vez de mochilas às costas, a primeira coisa a ser feita foi procurar um sítio onde as deixar e onde passar a noite. Desta vez tivemos sorte e encontrámos uma pensão com dormitórios, gerida por uma simpática família. Resultado: metade do preço das noites anteriores e (dá para imaginar as nossas caras de satisfação) pequeno almoço caseiro incluído! Melhor impossível.



A pensão não só era extremamente acolhedora como também muito interessante a nível estético: uma casa típica de uma família muçulmana turca: sapatos não entram, carpetes e tapeçarias por todo o lado, camas, mesas e bancos mais baixos do que o habitual (praticamente ao nível do chão), a salinha de visitas cuidadosamente arranjada e (isto ainda não tinhamos tido oportunidade de ver antes) casas de banho privativas para cada quarto, encaixadas dentro de um móvel tipo roupeiro de parede. Fecha-se a porta e ninguém diria que há casa de banho. O inconveniente? Ter de se trepar quase meio metro para entrar.




Após o acalmar de toda a curiosidade relativamente a estes pequenos pormenores , lá nos decidimos a ir explorar um pouco a vila (não sem antes almoçar um fabuloso menemen, um prato parecido com uma omolete de tomates e pimentos, mas em estado líquido - embora cozinhado, claro).
Bastaram alguns metros para nos perdermos com os encantos de Safranbolu. Seria fácil visitar tudo o que há de turístico para ver em apenas um dia, mas a paisagem é tão impressionante e encantadora e o contacto com a natureza (raro nestes últimos meses) tão refrescante que não resistimos a decidir ficar dois dias. Até mesmo as pessoas, presumo que influenciadas por todo este ambiente, parecem mais felizes, amigáveis e calmas, sem o desenfreado síndrome do buyurum*, típico dos turcos.



Obrigatório ver: algumas das casas otomanas restauradas (como a Havuzlu Asmazlar Konağı, a Havuzlu Köşk Et Lokantası ou a Kaymakamlar Müze), o Cinci Hanı (um antigo caravenserai), o Cinci Hamam (o típico banho turco) e, como não podia faltar, algumas das mesquitas da vila, como a Köprülü Mehmet Paşa Camii e a İzzet Paşa Camii. No entanto, nada melhor do que passar horas a explorar as pequenas ruas de calçada e os bazares e aproveitar a fantástica paisagem em redor.
Mal tinhamos ideia do que estava para vir, ou teríamos tentado aproveitar e desfrutar ainda mais.

* palavra ouvida vezes demais, especialmente nas ruas e nos bazares, e que os vendedores não se cansam de repetir interminavelmente com a intenção de atrair os clientes.

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