Wednesday, March 15, 2006
Saturday, March 11, 2006
Monday, March 06, 2006
Göreme - Istanbul (22 a 26 de Fevereiro)

Claro que o estômago falou mais alto e partimos em busca de um restaurante. Foi nesta altura que nos deparámos com a estranha realidade de Göreme: no Verão, inundada de turistas, são mais que muitas as possibilidades de escolha, tanto a nível de restaurantes como de hotéis. No Inverno, com uma diminuição significativa do n° de turistas, mais de metade dos sítios fecha e a cidade transforma-se praticamente numa cidade fantasma.
Com uma possibilidade de escolha bastante limitada, encontrámos um pequeno restaurante tradicional que nos encheu tanto os olhos como a barriga. Foi nesta cidade que descobrimos que afinal há bem mais do que mil e uma receitas diferentes de kebap (quase tantas como de bacalhau em Portugal). Uma das que tivemos oportunidade de experimentar foi o Testi Kebap, um kebap que é cozinhado dentro de um pote de barro (típico da região) fechado e que é partido ao meio quando é servido. Realmente, é incomparável ao normal Dürüm Kebap, mas não me perguntem o que é que eles fazem com as toneladas de potes partidos todos os anos.
Assim que reconfortámos o estômago, o nosso olhar em relação ao que nos rodeava tornou-se bem mais atento e, consequentemente, surpreso com a inacreditável paisagem. Completamente surreal. Compreende-se bem porque é que a Cappadocia é das zonas mais procuradas por turistas na Turquia. As incríveis formações rochosas são consequência da acção da força da água e da erosão num solo de origem vulcânica e o resultado é realmente surpreendente: as famosas rochas em forma de cogumelos, as fairy chimneys, as cordilheiras de montanhas onduladas, semelhantes a um grande gelado de baunilha (ou de morango, a cor vai variando durante o dia), que, de tão frágeis que parecem, receamos que se desfaçam com um simples toque, como castelos de areia... E, o mais curioso, as imensas caves antigas construídas dentro de rochas imponentes e que ainda hoje são habitadas.

Não foi nada complicado, portanto, descobrirmos onde ficar. Com duas indicações na mão, tomámos o caminho da primeira morada e, curiosamente ou não, o gerente já se encontrava à nossa espera. O nosso entusiasmo não tardou a esmorecer assim que vimos o tão aguardado "cave room": um cubículo, sem janela alguma, a cheirar a mofo, numa cave de uma casa normal. Ainda com alguma réstia de esperança, perguntámos se podíamos dar uma olhadela aos outros quartos.
- Claro que sim, mas vamos tomar primeiro um chá. Tivemos um pequeno problema com a canalização e estamos a tratar disso. Meia horita e está pronto.
Nada predispostos a esperar nem mais um minuto, lá convencemos o homem a mostrar-nos o tal quarto e não conseguimos esconder o quão surpresos ficámos com tanta lata. O quarto, para além de ser um quarto normal dentro da casa dos senhorios, estava completamente vazio e as tais reparaçõezitas implicavam acimentar todo o chão! Os nossos conhecimentos sobre obras não é muito, mas meia hora para cimento fresco secar e para limpar e mobilar um quarto?!
- Ok, obrigada, mas vamos dar uma volta pela cidade e já voltamos.
"Pois sim... Podem esperar sentados."
Completamente desapontados, lá pegámos no papel com as moradas e dirigimo-nos para a segunda opção. Não é difícil imaginar as nossas caras perante mais um quarto normal (embora, desta vez, minimamente habitável). Hesitámos em fazer novamente a difícil pergunta.
- Podemos ver os outros quartos?
Completamente surpresos, mas desta vez por bons motivos, mal pudemos conter os sorrisos quando demos por nós a caminho de um autêntico cave room. Roda-se a chaves na fechadura e, perante um quarto aparentemente decente, nem perdemos tempo a verificar a casa de banho ou qualquer outra coisa.
-Ok, ficamos quatro noites. A que horas é servido o pequeno almoço?
O nosso cave room. Estômago satisfeito, banhito tomado (desta vez a sério e com água quente), sete horas da tarde e já estava tudo a dormir, para só acordarmos catorze horas depois. Descanso mais do que merecido.
Manhã seguinte, no terraço a apanhar sol e com um belo de um pequeno almoço turco à nossa frente. Melhor impossível. Até mesmo a vista estava mais do que à altura: o centro da vila bem à nossa frente, com as formações rochosas quase sobrenaturais como pano de fundo.
Apesar de ser mais do que convidativo para uma bela de uma caminhada, tinhamos um problema prioritário para tratar: lavar roupa. Eu sei que não parece nada bem dizer que passámos a nossa primeira manhã na Cappadocia a lavar à mão, com sabonete e no lavatório, roupa suja de mais de uma semana, mas é a pura das verdades. Felizmente, a tarde compensou: a nossa primeira caminhada pelos vales da região. Regressámos já quase ao cair da noite, mais do que cansados, cobertos de pó desde a ponta dos pés à ponta dos cabelos, com alguns arranhões e quase sem impressões digitais (as rochas são formações arenosas, logo com potente efeito erosivo na pele, sobretudo quando se decide que a melhor vista para o pôr-do-sol é no topo de uma das mais altas, portanto algo difícil de escalar).
Os dias seguintes foram passados a explorar um pouco mais estes vales, por vezes com caminhadas de mais de 8 horas, e as vilas dos arredores. Um dos fenómenos mais incríveis a que se pode assistir é a mudança de cor da paisagem, consoante as horas dos dias, desde amarelo torrado a cor-de-rosa.
Mas o que não falta na Cappadocia são fenómenos estranhos: desde os camelos trazidos de outros países para satisfazer os desejos dos turistas concebidos por falsos estereótipos, ao UFO Museum, um museu sobre a vida extraterrestre, cuja indicação encontrámos numa estrada deserta, a quilómetros de distância de qualquer forma de civilização moderna. Just for the fun, lá seguimos a direcção indicada na placa e demos com uma barraca, igualmente no meio do nada, mas, infelizmente, estava fechado.

No segundo dia, traçámos a nossa rota de maneira a passarmos pelo Göreme Open-air Museum, onde podemos visitar as mais bem conservadas igrejas, capelas e mosteiros bizantinos contruídos dentro de formações rochosas. Inacreditavelmente, passados tantos séculos, permanecem de pé, com frescos impressionantes quase intactos.
A não perder igualmente, é o castelo de Uçhisar, construído através da mesma técnica de escavação na rocha, cujo topo é o lugar ideal para se ter uma panorâmica da região.
Foi com alguma tristeza que nos fizemos novamente à estrada, de regresso a Istanbul. Em três dias não deu para explorar nem metade de tudo o que a Cappadocia tem de interessante. Uma semana não seria demais, certamente.
Domingo, nove horas da noite. Ninguém precisa de nos dizer que chegámos a Istanbul: chove torrencialmente (para contrastar com o tempo primaveril de Göreme) e na otogar a azáfama é ensurdecedora. Buzinadelas, gritos e até mesmo o som de instrumentos musicais turcos e cânticos. Também ninguém precisa de nos dizer que houve um jogo de futebol. A multidão começa a aglomerar-se cada vez mais. Cantam, dançam, lutam. Continua a chover. Separam-se, fazem as pazes, cantam, dançam, gritam. Meia hora passada, continua a chover e nada do dolmuş. Mais uma luta, mais uma cançãozita, mais umas danças, os autocarros querem estacionar e não podem, buzinadelas, gritos... Sim, definitivamente não nos enganámos no nosso destino: Istanbul é inconfundível. Onde mais é que alguém se lembraria de vir comemorar a vitória de uma equipa de futebol para o parque de estacionamento de uma uma otogar, no meio do nada, nos arredores de uma das maiores cidades do mundo, à noite e com um tempo destes?
Dez horas da noite, Taksim, o centro da cidade. Com as mochilas às costas, completamente encharcados e esgotados de treze horas de viagem, percorremos a Istiklal, de regresso a casa, pensando nos possíveis problemas que poderiam estar à nossa espera em casa: falta de água? Falta de luz? Inundações? Ou quem sabe uma derrocada no edifício... Tudo é possível (e mais do que comum) por estes lados.
Felizmente, estava tudo no lugar e em perfeito funcionamento (a água só viria a faltar no dia seguinte e apenas por 48 horas) e até tinhamos uma boa surpresa: um amigo italiano, que regressou a Istanbul por uns dias na nossa ausência, não se esqueceu de nós e deixou-nos uma caixa de Bacci, uma cafeteira e um pacote de café italiano (que compensou maravilhosamente os 5 meses de penúria a Nescafé e a café turco).
Friday, March 03, 2006
Freitas do Amaral foi ao Parlamento falar dos ‘cartoons’. Quem me lê sabe que estou em desacordo com ele. Mas, ontem, gostei. Ele virou-se para Telmo Correia, do CDS, e lançou-lhe: “É preciso topete!”. Se há coisa que me comove é a defesa de palavras em extinção.
Topete é poupa (à Tintin) que os jovens voltam a usar mas que desapareceu da nossa conversa. É comum no Brasil: algumas espécies de beija-flor são de topete, e topete dizia-se do penteado do ex-presidente Itamar Franco. Mas, por cá, Eça foi o último a usar. Em ‘Os Maias’, ouve-se dizer, como ouviu Telmo Correia: “É preciso ter topete!”. E em ‘A Cidade e as Serras’ fala-se de uma “cantiga meio porca” mas com “topete”. Eu tirava Freitas dos Negócios Estrangeiros e punha-o ministro das Palavras Antigas.
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Por Ferreira Fernandes, em Correio da Manhã.
Wednesday, March 01, 2006
Tuesday, February 28, 2006
Nevşehir - Derinkuyu - Nevşehir - Göreme (22 de Fevereiro)
Se o normal em Portugal é os autocarros se atrasarem e demorarem mais tempo do que é previsto a chegar, inexplicavelmente, por estes lados os caminhos parecem tornar-se mais curtos e, por vezes, chegamos mais cedo do que o que estava estipulado. Algumas dessas vezes, bem mais cedo.
Nevşehir, otogar, cinco horas da manhã. Estado de espírito: "como é que chegámos aqui tão depressa?" e "que raio vamos fazer até às oito horas da manhã?".
Após algum tempo a tentar descansar um pouco nos desconfortáveis bancos metálicos da otogar (vale a pena lembrar que já era a segunda noite mal dormida), as agências de viagens começaram a abrir e, vendo ali possíveis clientes, não hesitaram em fazer-nos ofertas para entrar e "beber um chá". Mesmo sabendo que não íamos fazer negócio algum, mas de olho nos confortáveis sofás e no cházito, lá aceitámos um dos convintes. Obviamente, já ninguém dormiu mais mas, pelo menos, relaxámos um pouco no belo do sofazito e confortámos o estômago.
Por volta das 7h00, após muita leitura de panfletos turísticos, tanto que os vendedores se aperceberam de que não íam conseguir nada de nós, lá ganhámos coragem para meter as mochilas às costas e partir para o centro da cidade.
Pequeno almoço tomado e alguns quilómetros feitos a pé, decidimos apanhar um dolmuş para uma das cidades subterrâneas dos arredores: Derinkuyu.
Não se sabe ao certo quando foram construídas, mas não há dúvidas de que no século VII d.C. estavam habitadas. Em tempos de paz, a população fazia a sua vida normal à superfície, mas, sentindo-se ameaçada, refugiava-se debaixo de terra, num imenso labirinto de túneis, onde podia sobreviver por mais de seis meses. O mais curioso e impressionante é mesmo a dimensão destas cidades subterrâneas: Derinkuyu, por exemplo, tem sete andares! Dificilmente resistimos à tentação de tentar perceber como é que a população de uma cidade inteira conseguia sobreviver por tanto tempo num ambiente tão claustrofóbico (não são muitos os respiradouros exteriores), sobretudo quando se usava fogo tanto para cozinhar como para iluminação. Simplesmente inacreditável.
Terminada a visita, lá apanhámos o dolmuş de volta para Nevşehir e, apesar de esfomeados, começámos algo que iria durar horas intermináveis: a procura da paragem dos autocarros para Göreme. Primeiro, esperámos mais de uma hora na paragem que nos indicaram no posto de turismo, cansados, acabámos por perguntar a um polícia que nos disse que afinal era dois quarteirões depois, "sem dúvida alguma". Uma vez mais, quase uma hora de espera e nada. Nem mesmo os motoristas a quem perguntámos nos souberam dar uma resposta exacta. Já a entrar em desespero (misto de exaustão e fome), decidimos percorrer a pé os cerca de 4kms que nos separavam da otogar, onde seria impossível não encontrarmos o dito autocarro: mais tarde ou mais cedo todos lá páram. A meio do caminho, alguém nos disse que não precisavamos de ir até à otogar, bastava esperarmos ao lado de um liceu, mas, obviamente já descrédulos de qualquer informação proveniente de um turco, decidimos continuar. Ironia das ironias? Após apanharmos (finalmente) o dito autocarro na otogar, este não só havia todas as meias horas como, em vez deste sair imediatamente da cidade, passava primeiro ao lado do tal liceu.
Pormenores à parte, exaustos e famintos, finalmente a caminho de Göreme.
Monday, February 27, 2006
Amasya - Tokat - Nevşehir, Cappadocia (21 de Fevereiro)
Com apenas uma tarde para gastar em Tokat, tentámos planear tudo da forma mais proveitosa possível, mas a sensação de que se precisa de dormir numa cama decente e de que é urgente um banho a sério dificultou tudo um pouco mais.
A cidade em si não tem nada de tão impressionante como Safranbolu ou Amasya, mas foi bastante interessante visitar a Gök Medrese, um edifício usado como hospital até 1811 e que agora está transformado num museu, e o Latıfoğlu Konağı, considerado uma das melhores casas otomanas restauradas da Turquia. De resto, apenas mais algumas mesquitas e mais alguns túmulos.
Mesmo tendo supostamente ficado num quarto com banheira em Ankara, esta sim foi a primeira banheira que vimos na Turquia, em exposição na Gök Medrese.No entanto, o que realmente nos motivou a caminhar toda a tarde foi a busca pelo famoso Tokat Kebap, um prato típico com fama de soberbo, mas, estranhamente, impossível de encontrar na sua própria cidade de origem. Acabámos por ter de nos contentar com uma sopa e, uma vez mais, um kebap normal.
Agência de viagens, 23h00: preparados para uma longa viagem nocturna até Nevşehir, bem no coração da lendária Cappadocia.
Sunday, February 26, 2006
G. Bragolin - O pintor de crianças a chorar

Nesta figura podemos reparar no manto que cobre a criança. Este parece sangue a escorrer pelo corpo abaixo.

Na segunda figura, notamos que a criança parece estar morta, e que tem o braço apoiado sobre o corpo.

Na última imagem reparamos que o tamanho do braço é desproporcional ao resto do corpo da criança. Assim podemos associar o braço à presença de outra pessoa que parece estar a carregar a criança como se fosse um embrulho.
Saturday, February 25, 2006
Samsun - Amasya (19 a 21 de Fevereiro)
A meio da viagem, com o estômago a dar horas (sonoramente, já que a última refeição decente tinha sido o almoço do dia anterior), decidimos comprar poğaças numa otogar (sempre suspeitas a nível de comida), mas algo que nos deveria saber mais ao menos ao belo do pãozito de leite, tinha um sabor estranhamente parecido a carne fumada. Mais uma lição aprendida (de uma forma desgostosa - literalmente).
Mais uma vez, e após uma noite quase em claro na otogar, chegámos cedo demais ao nosso destino. E as aventuras também não tardaram. À espera de um dolmuş para o centro da cidade, travamos conversa com um turco que nos explica onde o devemos apanhar e onde devemos sair. Já na paragem, uma carrinha pára, o homem diz-nos que devemos entrar, mas só depois de já estarmos em andamento é que nos apercebemos que a carrinha não era um dolmuş, mas uma viatura particular de um amigo, que, por sinal, não tinha cara de grande amigos, para além de que o vidro frontal estava rachado, com dois buracos no meio (como se fossem de balas). Já a imaginar as mais mirabolantes das histórias, e com o coração apertadinho, mal fomos capazes de agradecer quando a carrinha parou no destino pretendido e o homem nos disse que podiamos sair.
Na cidade, incrivelmente deslumbrante, repleta antigas casas otomanas, tal como em Safranbolu, atravessada por um rio, monumentais rochedos como horizonte, resolvemos compensar a situação com um verdadeiro kavaltı (pequeno almoço tipicamente à la turca): o indispensável chá, claro, um balde a transbordar de pão, um prato com tomate, pepino, ovo, salame, azeitonas e o famoso beyaz peynir (uma espécie de queijo fresco mas mais seco, que eles insistem em comer com tudo e mais alguma coisa) e taças com mel, manteiga e compotas (isto tudo para apenas uma pessoa e por apenas 3 YTL - cerca de 2€). Ainda me interrogo como passei a apreciar tanta variedade logo de manhã, logo eu que era adepta das simples torradinhas com leite (embora confesse que o salame, as azeitonas e a salada ainda me fazem alguma confusão).
Depois de um pequeno almoço destes, não foi de admirar olhar para o relógio e constatar que todo o tempo que tinhamos para gastar antes de podermos fazer o check-in num hotel já se tinha ido. Não hesitámos em iniciar imediatamente as buscas por um sítio onde ficar, ansiando por um bom banho e um casa de banho europeia. Sim, porque para este lados as sanitas ainda não estão muito divulgadas - não é nada raro, muito pelo contrário, entramos num tuvalet e depararmo-nos apenas com o belo do buraquito no chão. Melhor do que isso, os turcos têm a teoria que é muito mais higiénico lavarmo-nos em vez de usarmos papel, por isso, a acompanhar o buraquito o que temos? Uma mangueira!
Felizmente, as buscas não demoraram muito e encontrámos um hotel consideravelmente barato em pouco tempo. Mas também não foi preciso muito tempo para descobrir o porquê do preço: a limpeza provavelmente era feita de mês a mês e aquecimento e água quente só entre as 21h e as 8h. Água quente na teoria: fazer um turco entender que há quem não consiga tomar um duche no Inverno só com água morna revelou-se uma verdadeira missão impossível. Solução? Banho à gato durante três dias.
Estoirados de todas as peripécias dos dias anteriores, embora fossem duas horas da tarde, caímos na cama que nem pedras, tanto que nem a falta de banho e comida decentes ou de um quarto minimamente limpo nos perturbou o sono até ao final da tarde. Obviamente que acabámos por decidir gastar o resto do dia a recuperar energias.
Ainda experimentámos entreter-nos um pouco com a televisão, mas acabámos por descobrir que é possível ter-se numa única TV a selecção dos vinte piores canais turcos. Ai querem música?! O Krall (canal com música turca de baixa qualidade) é bem mais do que suficiente. É que nem sequer o Powerturk... Mas também não se pode exigir muito de uma televisão como a turca. Nós reclamamos quando de manhã temos de levar com toneladas de publicidade, mas a TV turca consegue superar todas as expectativas: imaginem o que é ter de aguentar o dia todo com a mesma publicidade, neste caso a do Calgon, em todos os intervalos, de qualquer que seja o programa. Parece-me que a definição de "público alvo" ainda não chegou a estes lados.
Outro aspecto interessante é o facto de dobrarem tudo e mais alguma coisa que seja em língua estrangeira (nem a nossa Lúcia Moniz no Love Actually conseguiu escapar...).
Mais cómica ainda é a censura existente em alguns canais. Num país que deu origem à expressão "fumar como um turco", existe um canal que desfoca todos os cigarros e todas as cenas em que se encontra alguém a fumar. Simplesmente hilariante...
Bom, mas quem pode fazer dissertações infindáveis sobre a televisão turca (talvez até uma tese de mestrado), bem melhor do que eu, é quem passou noites em claro na sua companhia, tal era a fascinação.
Tudo isto para dizer que a hipótese TV foi imediatamente posta de parte. Solução? Premir-se o botãozito vermelho do comando e dormir.
O dia seguinte começou cedo (sim, ainda havia alguma esperança de que pudesse haver água quente antes das oito horas da manhã). Forçados a uma limpeza a frio, rapidamente ficámos despertos o suficiente para iniciarmos uma caminhada que só terminaria ao cair da noite (claro que não sem antes tomarmos um belo de um kavaltı).
Com tanto para ver numa única cidade, não foi fácil traçar o nosso destino. Começámos por percorrer a Atatürk Cad., visitando algumas mesquitas, tendo sido a Minare Camii uma das mais surpreendentes, com uma estrutura semelhante a uma igreja arménia e com um minarete em espiral, alguns túmulos, o Taş Han (um antigo caravenserai) e o Vakıf Bedesten Kapalı Carşı, um antigo bazar coberto, ainda hoje em uso, mas que, com o tempo, acabou por se transformar numa espécie de feira. Do antigo bazar só sobreviveu o corpo, não o espírito.
Uns bons passos depois, tivemos oportunidade de visitar outro interessante edifício, o Darüşşifa / Bimarhane, construído como hospício em 1309 e que se pensa ter sido um dos primeiros a tentar tratar distúrbios mentais com música. Actualmente, está transformado numa simpática cafetaria, que convida os viajantes a descansar um pouco e a tomar um chá, num ambiente muito oriental.
Após este merecido descanso, fizemo-nos novamente à estrada e andámos uns bons quilometros no meio das montanhas (por vezes um pouco desorientados, confesso) em busca da Aynalı Mağara, uma tumba romana, que provavelmente chegou a ser usada como capela pelos Bizantinos, que pintaram alguns frescos no seu interior. Com uma inscrição grega na fachada, este é das poucas tumbas romanas a ter qualquer tipo de ornamento. A caminhada, embora longa, foi bastante agradável, rodeados por uma paisagem impressionante, mas a chegada decepcionante. Para quem visitou as tumbas de Dalyan, as de Amasya deixam de ser surpreendentes, especialmente porque estão fechadas a visitas (pelos vistos, devido a casais que gostavam de passar bons momentos nos cantos mais obscuros) e só nos podemos ficar pelo exterior. Valeu a pena simplesmente pelo percurso.
De volta à cidade, decidimos explorar o lado oposto do rio, mais umas quantas mesquitas e outras tantas casas otomanas, mas uma fantástica medresesi octogonal, a Büyük Ağa Medresesi, um espécie de escola onde se estudava o Al-Corão. Neste momento, ainda serve de seminário para rapazes que se pretendem tornar hafız (teológicos que sabem o Al-Corão de cor).
Terminámos o dia com uma extenuante escalada na montanha central, onde pudemos explorar mais algumas tumbas romanas (igualmente decepcionantes, mas com vistas soberbas sobre a cidade) e as ruínas do Palácio das Maidens, que, pelo que parece, era uma espécie de harém. Ainda tentámos chegar ao topo e alcançar a citadela, mas fomos forçados a desistir da ideia quando nos apercebemos que a luz do dia já começava a deixar de ser suficiente.
Regresso ao hotel, nais um banho à gato e cama.
Dia seguinte, 10h30, otogar: de partida para Tokat.
Monday, February 20, 2006
Safranbolu - Bartın - Amasra - Bartın - Samsun (18 a 19 de Fevereiro)
Nove horas da manhã. Praça central de Safranbulo, à espera do dolmuş para a otogar. As férias no Paraíso não podiam durar sempre.
Chegámos a Bartın perto do meio-dia, após duas horas de quase desespero dentro de uma amostra de autocarro, numa estrada com mais buracos do que um queijo suíço. A intenção inicial era apanhar um autocarro para Amasra, na costa do Mar Negro, passar o dia na praia e à noite fazermo-nos novamente à estrada, percorrendo a costa até Sinop. Era um bom plano, não era?
Primeiro probema: chovia torrencialmente.
Segundo problema: todos os autocarros partem de Bartın (Amasra não tem otogar, o que nos obrigou a ter de voltar para Bartın).
Terceiro problema: já não havia bilhetes para Sinop.
Quarto problema: a alternativa, Samsun, só tinha um autocarro às quatro e meia da tarde.
Solução: apanhar o primeiro dolmuş para Amasra, almoçar, meia horita na praia (na companhia de um amoroso Golden Retriever, que desencantou uma bola de futebol na areia e que não descansou enquanto não nos pôs a jogar com ele, mesmo ensopados até aos ossos), voltar o mais cedo possível para Bartın e apanhar o autocarro das 16h30 para Samsun.
Facto curioso: pudemos comprovar que as aves turcas têm realmente qualquer problema psicológico (não, não me parece que esteja relacionada com a tal gripe). Tal como as aves em Istambul não dormem, há cisnes na costa do Mar Negro.
Quinto problema: os funcionários do autocarro (por estes lados existe habitualmente alguém a servir bebidas, e por vezes até mesmo uma fatiazita de bolo, durante as viagens) não eram muito dados a yabanciler (estrangeiros - segunda palavra mais ouvida), por isso arranjaram maneira de nos meter em lugares separados (embora tivessemos bilhetes para lugares juntos) e passaram o caminho todo a gozar com a situação. Eu, extraditada para um dos lugares à frente junto das mulheres de véu (que tentam manter a aparência de que nada se passa), a certo momento, ouço um dos funcionários a ser inteligentemente insultado em francês. Quem percebeu não proferiu mais uma única palavra até ao final da viagem. Por sorte, o ofendido não foi uma dessas pessoas ou provavelmente teríamos sido largados sozinhos numa estrada qualquer no fim do mundo.
Sexto problema: vá-se lá saber como, mas o certo é que a viagem durou menos umas cinco horas do que o previsto (como piada, circula a teoria de que se criam livrar o mais depressa possível dos yabanciler) e chegámos a Samsun antes das duas horas da manhã, o que nos leva ao sétimo problema: ficar na otogar e praticamente não dormir (o primeiro autocarro para Amasya era só as 8h30) ou tentar procurar um hotel onde passar a noite e adiar a partida por uma horas? Infelizmente, optámos pela segunda alternativa.
Infelizmente porquê? Primeiro fomos deixados à porta de um hotel 4 estrelas (a comunicação em turco continua a ter claramente ligeiras falhas). Segundo, todos os sítios que conseguimos encontrar com uma aparência mais normal tinham um preço igualmente abusivo. Por último, apercemo-nos que os únicos preços aceitáveis eram lugares com muito a desejar e altamente suspeitos (num deles, por exemplo, o gerente abriu a porta de todos os quartos para se certificar de se tinha ou não algum disponível).
Conclusão: uma hora de caminhada de volta para a otogar, onde chegámos às três da manhã, com a bela da tralha toda às costas e quase cinco horas sentados à espera do autocarro para Amasya.
Ankara - Safranbolu (16 a 18 de Fevereiro)
Cansados da cidade de betão, não nos poderíamos ter sentido melhor ao chegar a Safranbolu, uma pequena antiga vila otomana classificada como uma World Heritage pela Unesco. Rodeada por montanhas e penhascos rochosos, coberta de neve, mas com um tempo relativamente agradável, pareceu-nos o paraíso.
Mais uma vez de mochilas às costas, a primeira coisa a ser feita foi procurar um sítio onde as deixar e onde passar a noite. Desta vez tivemos sorte e encontrámos uma pensão com dormitórios, gerida por uma simpática família. Resultado: metade do preço das noites anteriores e (dá para imaginar as nossas caras de satisfação) pequeno almoço caseiro incluído! Melhor impossível.
A pensão não só era extremamente acolhedora como também muito interessante a nível estético: uma casa típica de uma família muçulmana turca: sapatos não entram, carpetes e tapeçarias por todo o lado, camas, mesas e bancos mais baixos do que o habitual (praticamente ao nível do chão), a salinha de visitas cuidadosamente arranjada e (isto ainda não tinhamos tido oportunidade de ver antes) casas de banho privativas para cada quarto, encaixadas dentro de um móvel tipo roupeiro de parede. Fecha-se a porta e ninguém diria que há casa de banho. O inconveniente? Ter de se trepar quase meio metro para entrar.

Após o acalmar de toda a curiosidade relativamente a estes pequenos pormenores , lá nos decidimos a ir explorar um pouco a vila (não sem antes almoçar um fabuloso menemen, um prato parecido com uma omolete de tomates e pimentos, mas em estado líquido - embora cozinhado, claro).
Bastaram alguns metros para nos perdermos com os encantos de Safranbolu. Seria fácil visitar tudo o que há de turístico para ver em apenas um dia, mas a paisagem é tão impressionante e encantadora e o contacto com a natureza (raro nestes últimos meses) tão refrescante que não resistimos a decidir ficar dois dias. Até mesmo as pessoas, presumo que influenciadas por todo este ambiente, parecem mais felizes, amigáveis e calmas, sem o desenfreado síndrome do buyurum*, típico dos turcos.
Obrigatório ver: algumas das casas otomanas restauradas (como a Havuzlu Asmazlar Konağı, a Havuzlu Köşk Et Lokantası ou a Kaymakamlar Müze), o Cinci Hanı (um antigo caravenserai), o Cinci Hamam (o típico banho turco) e, como não podia faltar, algumas das mesquitas da vila, como a Köprülü Mehmet Paşa Camii e a İzzet Paşa Camii. No entanto, nada melhor do que passar horas a explorar as pequenas ruas de calçada e os bazares e aproveitar a fantástica paisagem em redor.
Mal tinhamos ideia do que estava para vir, ou teríamos tentado aproveitar e desfrutar ainda mais.
* palavra ouvida vezes demais, especialmente nas ruas e nos bazares, e que os vendedores não se cansam de repetir interminavelmente com a intenção de atrair os clientes.
Sunday, February 19, 2006
Istanbul – Ankara (13 a 16 de Fevereiro)
Sendo ainda consideravelmente cedo, de tal forma que tivemos de esperar umas largas horas antes de podermos procurar um hotel onde deixar as bagagens, decidimos metermo-nos no Metro e dirigirmo-nos para o centro da cidade, na esperança de que este fosse um local um pouco mais humano e convidativo. Não poderíamos estar mais enganados. Ruas quase desertas, cafés e lojas praticamente ao abandono, um silêncio constrangedor para uma cidade tão grande. Simplesmente triste.Para animar um pouco a nossa alvorada (e para ganharmos um pouco de energia para as grandes caminhadas que tinhamos em mente) resolvemos começar por um pequeno-almoço à la turka: peynirli börek (uma espécie de lasanha de queijo branco) e chá (que não poderia faltar, claro está), seguido de uma visita a uma das maiores atracções de Ankara: o Museum of Anatolian Civilisations. No entanto, embora não deixe de ser bastante interessante, não me parece que seja o suficiente para fazer juz a toda a sua fama. De qualquer forma, estando-se em Ankara, é um sítio que vale a pena conhecer (não sem antes ter de se escapar dos persistentes guias que pretendem ser pagos para nos lerem a informação em inglês claramente exposta em cada canto do museu).
Terminada a visita, lá encontramos um hotel baratito (depois do habitual regateio de preços) e com condições aceitáveis. Após um par de horas de descanso voltamos a sair e, incrivelmente, por volta das 5 horas da tarde, deparamo-nos com quase tudo a fechar. Umas voltas pela cidade e finalmente damos com vida e movimento num dos bairros: a zona de restaurantes e de bares. Jantamos (um belo de um peixe grelhado para tirar a barriga de misérias) e, à falta do que fazer, voltamos para o hotel.
Dia seguinte, 9 horas da manhã. Tudo a postos para visitar o verdadeiro ex-libris de Ankara: Anıt Kabir, o monumental (literalmente) mausoléu de Mustafa Kemal Atatürk. Para quem desconhece, Atatürk é um ídolo por estes lados. Foi uma das pessoas que mais contribuiu para a fundação da República na Turquia e foi o responsável por uma verdadeira reformulação da sociedade turca: após a declaração da República, em 1923, uma Constituição foi adoptada, a poligamia foi proibida, novos códigos legais, western-style based, foram instituídos, o casamento civil passou passou a ser o legítimo (em vez de o religioso), o alfabeto árabe foi substituído por um latim modificado, as mulheres obtiveram o poder de voto e passaram a poder pertencer ao Parlamento (1934), todos os turcos foram obrigados a ter um apelido (antes cada pessoa só tinha primeiros nomes, normalmente um, o que, como é de se prever, dava origem a inúmeras confusões e a sérios problemas), entre outras mudanças. Assim, ao próprio Mustafa Kemal, o Parlamento designou-lhe o apelido de Atatürk ("pai dos turcos"), como símbolo de reconhecimento.Hoje em dia, principalmente no mundo ocidental, é grande o debate sobre o modo como Atatürk liderou o país. Muitos associam-no a um carácter dictatorial e ao nacionalismo (o que não é abertamente afirmado pela maioria dos turcos). Embora seja evidente (uma vista de olhos à Constituição de 1923 é suficiente para se perceber isso), basta olhar para os resultados para se compreender a gratidão do povo turco (é raro entrar-se numa casa ou num estabelecimento público onde a sua foto não esteja penduada na parede).
Relativamente ao seu mausoléu, é notório este reconhecimento: no topo de uma colina, que se avista em quase toda a cidade, o tamanho e a grandiosidade do monumento não passam despercebidos aos olhos de ninguém. Foram necessárias mais de 3 horas para o percorrer (o que não foi de todo um desperdício de tempo). Recomenda-se.
Após mais um almoço à la turka, kaşarlı pide (uma espécie de pizza de queijo em forma de barco, mas que os turcos afirmam não ter NADA a ver com pizza), ayran (uma bebida típica feita de iogurte natural, água e sal) e baklava (pequenos folhados com sabor a frutos secos), ganhámos coragem para a última caminhada, sempre a subir, até à citadela. E foi mesmo precisa esta coragem: ser apenas a subir ainda é aceitável, mas ter de o fazer com neve até aos joelhos e gelo nos caminhos mais percorridos (de tal forma que alguns momentos de patinagem artística tiveram o seu êxtase final com fabulosas quedas de cú), não é nada fácil. Felizmente, a vista compensou, não só pelas casas e ruelas antigas da cidade, mas também pela panorâmica da cidade, que nos permitiu ver uma das maiores mesquitas do mundo: a Kocatepe Camii.

Como era de se prever, o estado do terreno tornou a descida ainda mais complicada do que a subida, o que nos fez chegar a cidade já relativamente tarde. Por volta das 22h estávamos prontos para o mais que merecido jantar, mas, por incrível que pareça, já estava tudo fechado. Solução: Burger King e cama.Dia seguinte, 6 horas da manhã: no Metro a caminho da Otogar. De partida finalmente, mas não sem antes termos tido problemas com o gerente do hotel. Fazendo de conta que não nos entendia, não só nos fez pagar por quartos com casa de banho privativa com banheira (quando eu ainda não vi uma única banheira desde que cheguei à Turquia), como ainda se "esqueceu" do preço acordado iniciamente. Lição aprendida: sucesso no regateio seguido de pagamento antecipado. Sempre.
Saturday, February 18, 2006
HIM - In love and lonely
In love and lonely
I'm not with you my baby
Just to see you cry
I'm in love with you
Not the tears in your eyes
I can't remember
The last time you smiled
Oh I know how it feels
I know what it's like
To be
In love and lonely
In love and lonely
Don't what to do my baby
It's not alright
This can't be the end
The time to say good bye
No I won't walk away that easy
After all this time
Oh you know how it feels
You know what it's like
To be
In love and lonely
In love and lonely
Oh you know how it feels
You know what it's like
You know how it is
But you just can't stop crying
In love and lonely
In love and lonely
In love and lonely
In love and lonely

