Wednesday, March 30, 2005

Poema do Homem Só

Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem

Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nehum ser nós se transmite.

Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.

Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.

Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarçe,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém.

António Gedeão
Quanto à minha promessa no post El Regresso, fica para amanhã que hoje estou morto.

Tuesday, March 29, 2005

«Embriagai-vos!»

«Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais conta. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que esmaga os vossos ombros e vos faz pender para a terra, deveis embriagar-vos sem tréguas.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha, mas embriagai-vos.
E se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na solidão baça do vosso quarto, acordais, já dimuída ou desaparecida a embriaguez, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, a ave, o relógio vos responderão: "São horas de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha."»

Charles Baudelaire

(Este poema em prosa apareceu pela 1a vez no nº do Figaro de 7 Fevereiro 1864 e foi-me enviado pela teorizadora das couves assassinas, a excelentíssima Filipa... =P)

El regresso II

Não é fácil voltar à civilização depois de 4 dias no fim do mundo (portanto, sem acesso a grandes fontes de informação). Assim, a minha re-actualização tem progredido a um ritmo consideravelmente lento (e a internet hoje também não me parece disposta a ajudar) .
Por isso, decidi dar só uma olhadela geral às notícias destes últimos dias e aos blogs do costume e deixar-me de grandes comentários, ficando-me apenas por aquilo que não pode cair no esquecimento (não me parece que grande parte daquilo que poderia dizer seja realmente indispensável). Decidi, também, não me pronunciar sobre as últimas do nosso Governo, nem sobre o sismo na Àsia (e ao excesso de protagonismo dado, uma vez mais, aos turistas, sobretudo aos portugueses, nos nossos meios de comunicação), nem sobre o último aparecimento do Papa, nem sobre o novo Código da Estrada e o dinheiro "arrecadado" pelo Estado, nem sobre a epidemia de febre hemorrágica, nem sobre a agressão a um jornalista da SIC por um dono de uma empresa qualquer (gostaria de ser mais clara sobre isto, mas ouvi por alto na TV e não encontro nada sobre isso por aqui), nem sobre qualquer outra notícia nacional/internacional dos últimos dias (suponho que já tenham sido suficientemente comentadas e, para além disso, o meu tempo não é muito).
Depois das explicações, aqui fica o fundamental:


- O fim da versão on-line do Público gratuita (quem disse que o sistema informativo é cada vez mais democrático?);


El regresso...

Regressamos assim do mundo em que esteve muito frio...
Voltamos com uma barrigada de chocolates e doces, quer dizer, ela volta com uma barrigada de chocolates e doces. Eu limitei-me a vê-los comer. Julgo que aparte a chuva, foram umas férias agradáveis. Agora situo-me aqui em casa da Susana a escrever este post. À noite já volto a por algo mais compostinho, mais agradável à vista.
AMMC

Friday, March 25, 2005

Informa-se que...

...os realizadores deste blog foram de férias para o fim do mundo, por tempo indeterminado. (mas voltamos... =P )

A gerência,

Alexandre Caetano e Susana Nunes

Wednesday, March 23, 2005

Transgénicos

Para os que ainda tinham algumas dúvidas:

Estado mais laico, mas muito pouco laico

«De acordo com a Concordata, essas entidades passarão a estar isentas de tributação de qualquer imposto sobre as prestações dos crentes para o exercício do culto e ritos, os donativos para a realização dos seus fins religiosos, o resultado das colectas públicas com fins religiosos e a distribuição gratuita de publicações como declarações, avisos ou instruções. De igual modo, ficarão isentos de qualquer contribuição ou imposto regional ou local os lugares de culto ou prédios, as instalações de apoio directo e exclusivo das actividades religiosas, os seminários ou estabelecimentos destinados à formação eclesiástica, as dependências ou anexos dos imóveis anteriores, bem como os jardins e logradouros desses imóveis ou mesmo os bens móveis de carácter religioso. As mesmas entidades estão isentas de imposto de selo sobre aquisições de imóveis para fins religiosos, aquisições gratuitas, criação de fundações.»

Será que é desta?

«Dança e arrepende-te...»

É por causa de textos como este que, cada vez mais, considero o seu autor um exemplo a seguir por qualquer jornalista.

Controversa maresia

Um blog que decididamente me conquistou. Delicioso.

E afinal a crise chega mesmo a todos...

«A crise económica que afecta o país chegou às casas de alterne...»

Clonagem humana

O único motivo que me levava a ser a favor da clonagem humana (apenas para fins terapêuticos) deixou provavelmente de fazer sentido. Se se vier a provar que realmente existe uma alternativa tão simples, e com a mesma potencialidade, para quê continuar a ser a favor de algo tão etica e cientificamente duvidoso? Digo "provavelmente" e "se", porque o facto de uma investigação nesta área ter sido financiada, em parte, pela Igreja Católica, me deixa com algumas suspeitas.

Tuesday, March 22, 2005

Why does sin exist?

«Life sucks»